quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O velho vinil

“Olá, taverneira, bastarda de satã! Não vês que tenho sede e as garrafas estão secas como tua face e como nossas gargantas?” (Álvares de azevedo, Noite na taverna)



- Nem sei por que ainda venho aqui. A bebida que eles servem deve ser usada em algum lugar do mundo como inseticida! – dizia um senhor que passava perto da minha mesa.

Eu não me surpreenderia se aquilo fosse verdade. A bebida realmente era horrível ali (talvez precisasse melhorar um pouco para ser horrível). Nem mesmo eu sabia por que ainda freqüentava aquele lugar. A música era tão brega e melancólica que me dava vontade de cometer suicídio. As mesas e as cadeiras estavam caindo aos pedaços, o balcão também. Enfim, todo o lugar parecia destruído, arruinado, incluindo seus “ilustres frequentadores”, o que muito gentilmente me incluía. Todos ali pareciam ter uma plaquinha na testa, onde estava escrito em letras garrafais: “perdedor” (a minha, então, devia piscar como um letreiro de motel). Ali, ninguém era melhor ou pior que o outro, todos carregávamos nossos fracassos.

Você deve conhecer um lugar parecido, já deve ter entrado num desses bares. Sim, desses onde o cheiro de cachaça, suor e fumaça de cigarro barato é quase insuportável. Lá você deve ter visto alguns caras barrigudos, no alto dos seus quarenta e tantos anos, um boné surrado na cabeça, a barba por fazer e uma expressão de derrota no rosto. Por acaso eles bebiam sua cerveja como se esperassem, digamos, pelo fim do mundo nos próximos quinze ou vinte minutos?

Vou te contar uma coisa, esses sujeitos precisam desses bares tanto quanto uma planta precisa de água. Tire isso deles e logo a vida lhes parecerá insuportável. Necessitam desse ritual para exorcizar os seus demônios particulares. Essa é a natureza humana, somos fracos, psicologicamente despreparados para o “matar ou morrer” da vida cotidiana. A grande competição da existência. Sempre foi assim, desde os primórdios, quando o homem morava em cavernas e levava uma vida brutal. Necessitamos de algum tipo de apoio ou válvula de escape e o álcool (desde que foi descoberto que se poderia ingeri-lo) sempre cumpriu muito bem o papel de psicanalista. Você já reparou como todo bebum está propenso a falar espontaneamente coisas que jamais diria (talvez apenas sob tortura) se estivesse sóbrio?

Você deve estar se perguntando quem sou eu e por que motivos eu me encontrava naquele bar. Por enquanto, digamos que sou um sujeito que se adapta a qualquer ambiente e situação, por isso exerço tão bem a profissão que escolhi (além de tudo sou muito modesto). Você deve estar agora mesmo com outra pergunta na cabeça, mas vamos com calma. Tudo no seu devido tempo. O que importa é que eu estava sentado sozinho numa mesa bem ao fundo do bar, num canto mal iluminado e vazio. Não que o lugar fosse muito bem iluminado e muitíssimo bem frequentado. Ao contrário, era uma espelunca que vivia vazia, onde as lâmpadas que ainda funcionavam eram fracas e estavam quase sempre falhando. “Os caras que vem aqui”, pensei comigo mesmo, “ou sentem pena do pobre Jonas, que é dono do lugar, ou se sentem tão ferrados, tão ralé, que tem medo de ser rejeitados em outros bares. Só pode ser isso.”

Mas aquele lugar já foi muito diferente. Pertencia à família do Jonas há gerações, desde a época em que ainda era chamado de taverna do Malaquias (esse era o nome do tataravô do Jonas, o fundador). Sendo passado de pai para filho, o estabelecimento sempre garantiu a renda da família e já foi muito melhor frequentado. Músicos, jovens poetas desconhecidos e entusiasmadas moças aspirantes ao teatro preenchiam com risos e canções as noites do lugar que fora outrora ponto de encontro de artistas e estudantes. Quando o Jonas ainda era criança, intelectuais de todas as esferas de atuação prestigiavam o bar, atraídos pelo clima aconchegante e também pelo seu famoso cafezinho. Porém, depois de algum tempo as coisas começaram a mudar e o bar tornara-se apenas um reflexo distorcido do que já havia sido. Era agora um antro freqüentado por prostitutas, alcoólatras, desempregados e outras vítimas da sociedade. Além de idiotas como eu, é claro. O brilho do passado se extinguira, substituído aos poucos pela decadência. A mesma que corrompia toda a cidade, devorando-a como a gangrena o faz com a carne.


Perto do balcão uma porta se abriu, iluminando um pouco mais o lugar. Vi algumas baratas passeando pelo chão sujo. Naquele momento entendi por que o lugar era tão mal iluminado. A vigilância sanitária nem devia saber que aquele lugar existia, afinal o bar ficava num porão. Um sujeito alto e magro passou pela porta, que se fechou atrás dele, deixando tudo escuro novamente. O homem que acabava de entrar se chamava André Garibaldi. Ele sempre usava terno e gravata, nunca vestia outra coisa. Pelo menos era o que ele dizia. André era investigador da polícia e sempre que achava a ocasião oportuna (e nunca era), contava alguma bravata (sempre longa e tediosa) onde enaltecia incansavelmente a si mesmo. Gostava também de dizer que era descendente de Giuseppe Garibaldi, o herói italiano que lutara no Brasil durante a guerra dos farrapos e blah, blah, blah, ET Cetera, ET Cetera e tal. Aquele papo me dava sono. Os ancestrais dele não me interessavam nem um pouco. Sinceramente, nem os meus me interessavam! André, no entanto, era um valioso contato que eu tinha dentro da polícia e ele costumava ter certa relevância para os meus negócios. Era isso o que importava. Além de sermos amigos, é claro, mas isso era apenas um detalhe. Depois de passar pelas mesas de bilhar ele veio em minha direção, caminhando elegantemente em meio à fumaça dos cigarros que preenchia o ambiente.

- Você está atrasado quinze minutos. - Disse calmamente e sem olhá-lo enquanto ele se sentava.
- A pontualidade é uma virtude dos desocupados, meu caro amigo, e devo confessar que ando bem atarefado nestes últimos dias.
- Então eu vou te dar a grande chance de fugir um pouquinho da sua rotina! Tenho um serviçinho para você!
- Lá vem você outra vez! Lembra que ainda está me devendo aquele último “serviçinho”, não lembra?
- Que é isso, André! Você sabe que aquela cliente ainda não me pagou...
- Sei, conta outra, vai.
- Acha que eu seria capaz de mentir pra você, André? Que falta de confiança, hein! Além do mais, tem duas coisinhas que você devia levar em consideração. Primeiro: eu te pago com um saquinho de biscoitos caseiros que eu compro na padaria ao lado da minha casa! Vai ficar me cobrando isso?! Que avareza!
- Avarento é você, que mesmo me pagando com quitutes, ainda consegue ficar me devendo! Além do mais eu só te cobro essa “modesta taxa” para que os meus préstimos não pareçam algo sem valor. Adoro esses biscoitinhos que eles vendem lá perto da sua casa, que francamente, é muito longe de onde moro. Por isso, nada melhor do que você trazê-los para mim, não concorda? Uma mão lava a outra, meu amigo!
- Tem razão, e a segunda coisa que você devia considerar é a nossa amizade, que para mim é o mais importante! Responda, eu já te neguei alguma coisa?
- Já, várias vezes.
- Ah, é? Então cite uma dessas coisas, só uma, por que eu não me lembro de nada que eu já tenha te negado!
- Você se lembra quando te pedi emprestado aquele vinil do...
- Tudo bem! – disse eu, interrompendo. – Mas foi só isso, nunca te neguei mais nada...
- Teve também aquela vez – agora era André quem me cortava - em que te pedi aquele livro do...
- Certo, certo, já entendi! – interrompi novamente, resignado. Eu realmente demonstrava “cuidado demais” com o que era meu. – Você venceu! Amanhã trarei dois pacotes de biscoitos. Está satisfeito agora?
- “Eat, drink and love, what can the rest avail us?”
- Palavras do poeta!
- Mas então, do que se trata esse tal serviçinho?

Passei as informações para André enquanto fazia um sinal para que Jonas nos trouxesse uma cerveja. Disse apenas o necessário para que ele conseguisse o que eu queria: mais informações. Eu Tinha um “quebra-cabeça” para resolver e ainda não reunira todas as peças. Pedi outra cerveja e rapidamente desviamos a conversa para assuntos mais triviais: nossas vidas pessoais. Ele me contava como terminara sua última aventura amorosa e eu lhe contei sobre minhas desventuras. Depois de três cervejas André se despediu de mim, deixando uma nota sobre a mesa. Essa era uma das vantagens que sua amizade me proporcionava, ele sempre pagava a conta!
- Não se esqueça dos meus biscoitos! – gritou já saindo do bar.

Eu permaneci ainda alguns minutos, refletindo sobre tudo o que se passara desde que aquela mulher havia me procurado. Apalpei os bolsos à procura dos meus cigarros e só então me dei conta de que haviam acabado. Precisava urgentemente de umas tragadas e tinha que sair dali se quisesse alguns cigarros decentes, então paguei a conta, e ao passar pelo balcão lembrei-me porque ainda freqüentava aquele lugar horroroso. Próximo a uma parede onde a tinta já descascava havia um antigo aparelho de vinil, desses que trocavam automaticamente o disco. Mesmo que só tocasse as músicas ruins que os clientes do Jonas gostavam, eu era apaixonado por aquela velharia! Saí, a porta se fechou atrás de mim com um rangido e pude ouvir a música diminuindo gradativamente à medida que eu subia as escadas de pedra em direção à rua. Logo estava caminhando pela estreita rua sem saída onde se localizava o bar, no porão de um velho edifício. O céu estava totalmente nublado e uma suave brisa fria soprava. A cidade parecia estar de luto, a visão das fachadas silenciosas dos arranha-céus trazia à minha mente uma só palavra: solidão. Olhei para trás ainda uma vez e contemplei, ao longe, fixa no chão, a plaquinha de metal com uma pequena seta apontando as escadas. Nela podia-se ler: O velho vinil bar.

(Wilker Duarte)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A queda do homem

Somos belos, mesmo que sejamos

Barro e nada mais, ainda somos

Com certeza

Belos

Pois somos trágicos e violentos

E há beleza na dor

Há romantismo no sangue

Há qualquer coisa de erótico

E excitante

Em ser um pecador

Somos belos, pois é breve

O nosso tempo

A existência

Não é mais do que um relâmpago

Na grande noite escura

Do universo



(Wilker Duarte)



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Paisagens urbanas






Corre homem comum

Pelos trilhos de tua própria vida

Pelas ruas mudas, impassíveis

Frias testemunhas

De teus desenganos, desamores

Corre, como fazem os teus

A pisar micro-organismos

Vidas menores que ignoras

No entanto estão ali

Zombando de teus atos

Corre homem comum

Pela urbana selva

Acostuma teus ouvidos

À tristeza dos pássaros

E ao canto dos pobres

E ainda que não queiras

Chegarão a ti

O eco dos assassinatos

E a (imensa) solidão dos monumentos

Corre homem comum

De tua própria condição

De ser pensante, ser humano

Tu, que és tão hipócrita

E tão monossilábico

Tu, que cala-te e esperas o fogo

E andas a vagar

Sozinho e sem destino algum

Na noite mais escura

Dessa vida

Corre homem comum

Tu, ó sombra esquálida

Que encerras em teu peito

Abismo incerto

Monstros e mais monstros

Medo, medo e segredos

Tu, que já não passas

Do tosco e triste reflexo

Projetado em meu espelho

(Wilker Duarte)